Há uma sensação estranha pairando sobre o empreendedorismo brasileiro neste momento. De um lado, os números de quem está começando não poderiam ser mais animadores. De outro, quem já construiu um negócio há mais tempo — principalmente na indústria — segue com o pé no freio há quase dois anos. Duas fotografias do mesmo país, tiradas na mesma semana, contando histórias completamente diferentes.
A euforia de quem está começando
Os dados de abertura de negócios no Brasil em 2026 impressionam. Segundo levantamento do Sebrae com base em informações da Receita Federal, a criação de novos pequenos negócios cresceu quase 14% em relação ao ano anterior — puxada principalmente pelo MEI, que segue como a porta de entrada preferida de quem decide empreender. Estados como Amapá, Maranhão e Rondônia lideram esse crescimento, alguns com alta superior a 25% na comparação anual.
Não é exagero dizer que empreender virou parte do imaginário nacional. Pesquisas recentes do Global Entrepreneurship Monitor (GEM) mostram que ter o próprio negócio está entre os sonhos mais citados pelos brasileiros, perdendo apenas para a casa própria. E o público que empreende está mudando: pela primeira vez, a pesquisa GEM passou a incluir dados específicos sobre empreendedores acima de 65 anos, reconhecendo um movimento de "empreendedorismo sênior" que cresce dentro do país.
A digitalização também deixou de ser exceção. Praticamente todo empreendedor brasileiro — seja quem está começando agora ou quem já está no mercado há anos — hoje usa algum tipo de ferramenta digital para vender. É um Brasil que, na ponta inicial da jornada empreendedora, nunca esteve tão confiante.
A cautela de quem já está no jogo
Só que essa confiança não é unânime. Enquanto a porta de entrada do empreendedorismo nunca esteve tão movimentada, o retrato de quem já está estabelecido — em especial na indústria — conta outra história. O Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI), calculado mensalmente pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), caiu pela 21ª vez seguida em setembro, recuando de 46,3 para 44,9 pontos. O número está 5,1 pontos abaixo da linha de 50, que separa otimismo de pessimismo — e a pesquisa mais recente ouviu quase 1.200 empresas industriais de pequeno, médio e grande porte.
Há, porém, um detalhe que evita o pessimismo total: mesmo desconfiando do cenário econômico geral do país, os empresários consultados seguem relativamente confiantes na própria empresa, com expectativa individual ainda acima da linha dos 50 pontos. Ou seja, o empreendedor brasileiro estabelecido não duvida do seu próprio negócio — duvida do ambiente ao redor dele.
Duas fases, um mesmo ciclo
Esse contraste não é necessariamente uma contradição — é, na verdade, bastante coerente com o que costuma acontecer em momentos de transição econômica. Quem está começando agora enxerga oportunidade, embala pela vontade de mudar de vida e ainda não carregou nas costas os efeitos de juros altos, carga tributária pesada e burocracia acumulada. Já quem está no mercado há mais tempo sente na pele o peso de cada uma dessas variáveis, mês após mês.
E setembro, especificamente, tem um motivo concreto para essa cautela pesar mais. É neste mês que milhões de micro e pequenas empresas brasileiras precisam tomar uma das decisões tributárias mais relevantes desde a criação do Simples Nacional: como vão apurar o IBS e a CBS, os novos tributos da Reforma Tributária, a partir de 2027. A decisão, que precisa ser comunicada à Receita Federal até 30 de setembro, é do tipo que não tem volta fácil depois de outubro — e ajuda a explicar por que quem já está com a operação rodando enxerga o cenário com mais peso na consciência do que quem está apenas começando.
O que isso significa para quem empreende (ou pensa em empreender)
Nenhuma das duas fotografias está errada — elas só mostram momentos diferentes da mesma jornada. Se você está começando agora, o otimismo dos dados é real e faz sentido aproveitar o momento. Mas vale entrar de olhos abertos: o empresário mais experiente não está pessimista à toa, e parte da cautela dele vem de decisões burocráticas e tributárias que, cedo ou tarde, também vão bater à sua porta.
Se você já tem um negócio rodando, o dado da CNI é, de certa forma, um alívio: a cautela que você sente não é individual, é coletiva — quase todo empresário industrial do país está no mesmo clima há quase dois anos. O ponto de atenção real está em não deixar a cautela virar paralisia justamente no mês em que decisões tributárias importantes precisam ser tomadas.
No fim, o retrato de setembro de 2026 é o de um Brasil que segue empreendendo com garra na entrada e com os pés no chão em quem já trilhou o caminho — dois sentimentos que, juntos, talvez sejam exatamente o equilíbrio que o empreendedorismo brasileiro precisa para crescer de forma mais sólida daqui pra frente.
Este texto foi escrito com base em dados públicos do Sebrae, da pesquisa GEM (Global Entrepreneurship Monitor) e do Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI), da CNI, divulgados em setembro de 2026.
